No cotidiano, atravessar não tem nada de épico. É responder a mensagem que você evita há semanas. É admitir que o trabalho já não faz sentido, mesmo pagando as contas. É sustentar uma conversa que pode mudar uma relação ou encerrá-la.
Muita gente tenta contornar. Distrai, racionaliza, se ocupa, espera o tempo resolver. Mas o que é evitado não desaparece. Volta como cansaço, irritação constante, perda de prazer nas coisas simples.
Atravessar é aceitar o desconforto de olhar para o que está aí. Não para sofrer mais, mas porque fugir cobra um preço alto demais. A travessia exige presença. Exige reconhecer que não escolher também é uma escolha, e geralmente a mais pesada.
Na clínica, atravessar não significa encontrar respostas bonitas. Significa sustentar perguntas que não aceitam mais adiamento. Ficar com o incômodo tempo suficiente para que algo se transforme.
Não é sobre coragem idealizada. É sobre honestidade com a própria vida, do jeito que ela está agora.
Aline Andrade
Psicóloga Clínica




