O medo se alimenta da fuga.

No dia a dia, a fuga aparece em gestos pequenos. Adiar uma conversa incômoda. Fingir que não viu uma mensagem. Trabalhar demais para não pensar. Dormir para escapar do cansaço que não é só físico.

Quando você foge, o medo não desaparece. Ele ganha tempo, espaço e imaginação. O que não foi encarado começa a crescer por dentro, sem contraponto da realidade. A conversa evitada vira um desastre na cabeça. A decisão adiada vira uma ameaça difusa. O silêncio vira prova de algo que nunca aconteceu.

O medo se alimenta da fuga porque a fuga impede o confronto com o real. E o real, por mais duro que seja, costuma ser mais limitado do que o medo prevê. Quando não há escolha assumida, o medo ocupa esse lugar.

Em termos existenciais, fugir é também recusar a própria liberdade. Não escolher é uma escolha. E essa escolha sustenta o medo como modo de existir.

Encarar não elimina o medo. Mas o enfraquece. Porque o medo vive melhor no território do “e se” do que no chão concreto do que é.

Aline Andrade
Psicóloga Clínica