Adoece tentar viver brigando com o que é. Não aceitar não no sentido de concordar ou gostar, mas de reconhecer. A vida como ela está agora, e não como deveria ter sido.
No cotidiano, isso aparece de forma silenciosa. A pessoa insiste em manter uma relação que já acabou, porque idealizou quem o outro poderia ser. Permanece em um trabalho que só machuca, porque acredita que um dia vai voltar a fazer sentido. Força alegria onde só existe cansaço.
A idealização funciona como anestesia no início. Sustenta expectativas, cria promessas internas, dá a ilusão de controle. Mas, com o tempo, vira cobrança. Do outro, da vida e de si mesmo. A realidade nunca alcança o ideal, e a frustração se instala como estado permanente.
Não aceitar o que está posto exige um esforço constante. O corpo sente. Tensão, irritação, desânimo, sintomas que não têm nome claro. Não é fraqueza. É desgaste de sustentar uma fantasia em tempo integral.
Aceitar não é desistir da vida. É parar de exigir que ela corresponda a um roteiro que já não se sustenta. Quando o ideal cai, algo dói. Mas também algo se libera. Energia, presença, possibilidade de escolha.
O adoecimento muitas vezes não vem do que acontece. Vem da recusa em deixar cair aquilo que nunca foi.
Aline Andrade
Psicóloga Clínica



