Júlia fala que passado é passado, mas o corpo dela continua em estado de sobrevivência.

Júlia acha normal pensar demais antes de responder alguém.
Acha normal pedir desculpas por tudo.
Acha normal se adaptar o tempo inteiro para evitar conflito.
Acha normal viver cansada, sempre alerta, sempre antecipando problemas.

Só acha normal porque sempre foi assim.

O que Júlia não percebe é que muita coisa que ela chama de “jeito dela” nasceu como defesa.
Não nasceu porque ela era calma, madura ou forte.
Nasceu porque, em algum momento, sentir, se posicionar ou relaxar parecia perigoso demais.

Então ela aprendeu a controlar tudo.
Aprendeu a engolir desconfortos.
Aprendeu a se desligar do próprio corpo.
E agora já nem sabe diferenciar personalidade de mecanismo de proteção.

A mente tenta seguir em frente.
Mas o corpo não funciona no discurso.
O corpo funciona na experiência.

Se ele aprendeu que o mundo não era seguro, continua agindo como quem precisa sobreviver.
Mesmo anos depois.

Por isso Júlia se tensiona em conversas simples.
Por isso qualquer rejeição parece enorme.
Por isso ela vive cansada mesmo sem “ter motivo”.

O passado não fica no passado só porque a pessoa decidiu não falar mais sobre ele.
Ele continua reverberando no corpo, nas escolhas, nos relacionamentos e na forma de existir.

E talvez uma das partes mais difíceis seja aceitar isso.
Aceitar que certas dores moldaram quem você se tornou.
Não para viver presa nisso.
Mas para finalmente parar de chamar sofrimento de personalidade.

Porque o que é cuidado pode, aos poucos, deixar de ser sobrevivência.

Aline Andrade Psicóloga Clínica

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