Júlia tem medo de desmoronar. Mas talvez seja exatamente disso que ela precise.

Júlia está sempre pensando.

Não no que está acontecendo agora.

No que pode acontecer daqui a pouco.

Ela revisa conversas na cabeça. Imagina cenários. Antecipa problemas. Ensaia respostas. Tenta prever reações. Procura sinais de que algo está prestes a dar errado.

Enquanto o corpo está no presente, a mente já está tentando controlar o futuro.

E isso consome uma quantidade enorme de energia.

Não apenas porque ela pensa muito.

Mas porque quase todos os seus pensamentos têm a mesma função: protegê-la.

Júlia aprendeu cedo que estar atenta era importante.

Em algum momento da vida, percebeu que precisava observar, adaptar-se e prever.

Prestar atenção no humor das pessoas.

Evitar erros.

Antecipar conflitos.

Não dar trabalho.

Não ser pega de surpresa.

Então ela desenvolveu uma habilidade admirável.

Aprendeu a ler o ambiente.

Aprendeu a perceber detalhes que os outros não percebiam.

Aprendeu a se preparar para tudo.

O problema é que aquilo que a protegeu também a aprisionou.

A ameaça já não está mais ali.

Mas a vigilância continua.

O perigo passou.

Mas o corpo não recebeu a notícia.

Por isso descansar parece tão difícil.

Quando tudo está bem, Júlia procura o que pode dar errado.

Quando não existe problema algum, sua mente cria cenários para se preparar.

Como se relaxar fosse um risco.

Como se baixar a guarda fosse um erro.

Como se a segurança dependesse exclusivamente da sua capacidade de prever o próximo desastre.

Com o tempo, ela passou a chamar isso de personalidade.

“Eu sou assim.”

“Sempre fui preocupada.”

“Sempre pensei demais.”

Mas isso não é apenas uma característica.

É uma forma de sobreviver que foi repetida tantas vezes que parece parte de quem ela é.

Júlia gasta uma energia imensa tentando evitar dores futuras.

E, nessa tentativa, deixa de perceber a dor que já está vivendo agora.

O cansaço.

A tensão constante.

A dificuldade de descansar.

A sensação de que nunca pode simplesmente existir.

Porque alguém precisa estar atento.

Alguém precisa prever.

Alguém precisa sustentar tudo.

E esse alguém sempre acaba sendo ela.

Por isso a ideia de desmoronar assusta tanto.

Desmoronar significa abrir mão do controle.

Parar de vigiar.

Parar de carregar.

Parar de acreditar que tudo depende dela.

Mas o que precisa desmoronar não é Júlia.

É a crença de que ela precisa permanecer em alerta para merecer segurança.

É a obrigação de sustentar tudo sozinha.

É a ideia de que descansar é perigoso.

É a versão dela que continua vivendo como se a ameaça ainda estivesse presente.

E, às vezes, o desmoronamento não é uma tragédia.

É apenas o fim de uma estratégia que já cumpriu sua função.

Aline Andrade Psicóloga Clínica

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